Nascem em toda a terra: hortelã, alecrim, urtiga, coentro, erva-cidreira, orégão, salsa, tomilho, curri, arruda, calêndula, dente de leão, alho, morango, trevo... E tantas ervas.
Ontem escutei um poema a Iacyr Freitas, poeta mineiro apresentado por Concha Rousia. Falava dessas mesmas plantas, de como tinham acompanhado a sua infância. A nós entregam-nos aroma, bens, cor e condimento.
A nossa biblioteca é heterodoxa e livre. Chega da herdança, da vida, e medra nos afectos e nos interesses do Alexandre, da Iara e do Alejandro, de jeito que se reparte em quartos e vivências, ainda que forme parte de um imaginário comum.
Aumenta cada mês, ainda com o sacrifício de uma economia humilde, porque tem a importância do alimento. Canta cada dia uma história, um verso, uma reflexão.
A água que calma a nossa sede, a que lava as nossas mãos, conforma o rio Pontilhão, o que une o seu destino ao Ulha.
A água que nos acompanha é bem livre, alegre em cachoeiras, tranquila nos remansos, segreda nos poços, viva nos muinhos. Acariciadora, doce, abundante, amorosa.
As mãos do vento tangeram a primeira música nas canas.
Depois chegaram as pandeiretas, as flautas, as conchas, as castanholas, as guitarras, o piano... e a harpa. Muita música pintou as paredes desta casa e muita ainda aguarda para explodir. Xavier, Juan Carlos Zamora, Alexandre, Iara, Isabel Rei, Alejandro, Iam Colquhoun, Noemí Mazoy, Valery Zviarzhevich, Manuel Pardo, Pablo Mazoy... Tantas mãos, tantas vozes!
Da bisavó que tinha nascido neste Vale do Pico Sacro, ao pé do castro de Gastrar, da avó sempre a sentir na sombra este lugar do mundo, da prima da avó que encantou a minha infância, da filha que cria borboletas no colo e raiz no mundo, e, sobre todas nós, da Rainha, de Lupa que nos entrega as palavras da criação.
As castanhas são dom do Outono, mas o seu ciclo começa agora, com os primeiros rebentos.
Uma dúzia de castanheiros reinícia o seu tempo de verdor, para criar os frutos deste ano. As castanhas que procuramos no Outono, cesta em mão, para o magosto, são ainda utopia amorosa das árvores.
Conservamos frutos do último ano, encantos deste souto intercalado na carvalheira, amigo dos micélios que deliciam as cozinhas.
A nossa casa é um sonho de vida, mas também um empenho, um esforço, um processo.
Renunciamos e ganhamos. Que por sempre assim seja!
A nossa casa está repleta de memoriais tatuados nas columnas, de forças reencontradas na vivência.
Nasceu há muitos anos, nos instantes felizes de uma tarde de infância em visita à prima da avó, ao Pico Sacro, à terra matricial da estirpe, na necessidade de retomar o caminho do clã. Medrou com sentido galaico e frutos leves, com o conhecimento do seu processo vivencial, com o passo nela dos nomes que a habitam.
Escavado, o solo revela a sua textura: dura a tona, pedragoso o interior e mais abaixo muita argila.
Ele é a nossa esperança. Neste início da Primavera aguardamos para conhecer as pequenas plantas, as filhas das sementes dos pementos, das melancias, das cabaças, da alface.... do carinho com que a terra é lavrada.
Saúdam as minhocas a nossa visita e voltam, rápidas, ao seu lar.
Chegou a casa num dia de São João, data da que ganhou o seu nome. Antes tinha sido criatura vadia, se vadia pode ser uma gata. Ficou um verão completo a fugir de nós, até que decidiu entregar o seu carinho e companha em troco de uma retribuição semelhante.
Anos mais tarde perdeu o rabo em luta singular, e assim ficou orgulhosa da sua diferença.
Joana, gata, amiga feliz.
Na Primavera estouram cores entre o verde e o castanho. As flores nascem nas fruteiras, nos arbustos, na relva... São flores humildes e flores presumidas, todas belas.
Alegram a paz, mostram caminhos.
O ninho chegou da Colômbia há mais de dez anos para ser casa vizinha da nossa.
Na Primavera passada um casal de ferreirinhos o habitou e criou nele os seus pequenos. Encantamo-nos a seguir o voo, a verificar a solidariedade do par.
Oxalá a nova Primavera achegue vida a este ninho agora vazio: Cede-se a ocupas colorid@s!
Perdida ou abandonada, conhecemo-la no hospital do Refúgio de Animais de Bando, desde onde chegou à casinha em Maio do 2008.
Nasceu a alegria com ela na Terra Verde. Companheira afectuosa, sempre tinha amor que entregar, solidariedade que partir. Coidava as galinhas com saber mais de granjeira que de pastora.
Na última primavera morreu à beira da casa. Junto ao seu corpo miudo, plantamos uma groselha.
Filho de Elfa e de memórias encantadas, há mais de dez anos que Chipaque nasceu na Terra Verde.
Pensador, nesta velhice, protege-nos com bondade e sabedoria. Anos atrás movimentava-nos com aventuras múltiplas e paixões desmedidas por cadelas vizinhas.
Chipa é um espírito livre espelhado em dois olhos profundos e honestos.
Viva, a casa, com a marca do lume na pedra, com a cor do amor múltiplo.
Habitamos os risos, as palavras, os silêncios, as cantigas, as lágrimas e as carícias. Escrevemos, pintamos, dançamos, cozinhamos, descansamos, trabalhamos, conversamos, criamos.
O nosso lar mora em nós e nós moramos nele.
Medramos em abraço simbiótico.
Quanto amor!
Sempre, desde o sempre da nossa chegada, acompanharam-nos gatas e gatos de interessantíssimas biografias. Agora somos acarinhados por Joana e Silvestre.
Silvestre mora na Terra Verde desde há ano e meio. Daquela era uma bolinha pequena e tenra que tinha sido achada, a chorar sob um carro, por uma família amiga. Andava a procurar morada e acabou nesta.
Passou os seus primeiros tempos no interior, feito um mimo. Depois começaram as saídas e, desde há poucos meses, as ânsias de namoro e os lamentos nocturnos. A sua última aventura levou-nos a um resgate às três da madrugada, em intensa luta contra uma silveira.
Quando chegamos, a Terra Verde era um pinheiral menino. Apenas o seu Norte se enriquecia com uma linha de árvores sagradas. Aguardamos. Medraram os pinheiros até alcançarem tamanho adulto e então foram cortados.
Na terra renovada, os carvalhinhos nasceram da revolta, retomaram o espaço de séculos, conformaram rede viva, abraço de água, de terra e de ar no seu existir.
Os galos passeiam perto das galinhas num constante afã de individualidade e diferença.
Na Terra Verde houve galos hipercantores, galos mudos, galos afeiçoados a outros galos, galos maternais, galos agressivos, galos tenros, galos acosadores, galos que não chegaram a ter crista.
Este é um galo monógamo que passeia em companhia da única galinha que resistiu o último ataque do raposo. Tranquilo, sem vontade de acosar ou competir, é companheiro respeitoso e feliz, de canto matutino, claro e alegre.
Cheira a vida. Aquecemos a casa com a lenha, produto das podas dos carvalhos que nos abraçam. Sabemos que há lar quando a comunhão da madeira com o lume, com o amor, com a pedra, com a música e os sorrisos produz luz, calor, bem e dom. Cozinhamos no aroma, na textura vegetal e sabemos que a carícia dos carvalhos nos transforma. Assim criamos raiz.
A natureza acorda nestes tempos de luz. As camélias, as roseiras, o rododendro, os narcisos, tudo deita cor, para complementar o verde da erva que medrou durante os tempos de chuva. Mas a ameixeira é agora a rainha da Terra Verde, a anunciar a Primavera desde a cor do Inverno. As abelhas dançam entre as suas flores e as promesas dos frutos medram no seu ritmo: som de bem.
De um tronco bifurcado cresceu a vida. Retorno cíclico dos dons.
Entre carvalhos, à sombra do Pico Sacro, cria-se a Terra Verde. Medram a estirpe e a raiz.
No coração da Galiza, protegido pola montanha sagrada, molda-se o nosso espaço. Nele amamos, coidamos, protegemos, somos coidadas, protegidas, amadas: vivemos.
Abre a terra sulcos para alimentar-nos, abrimos nós a porta para receber. Assim convivemos com o mundo, desde este cantinho, desde tanto bem.