sábado, 28 de março de 2015

Música I


As mãos do vento tangeram a primeira música nas canas.

Depois chegaram as pandeiretas, as flautas, as conchas, as castanholas, as guitarras, o piano... e a harpa. Muita música pintou as paredes desta casa e muita ainda aguarda para explodir. Xavier, Juan Carlos Zamora, Alexandre, Iara, Isabel Rei, Alejandro, Iam Colquhoun, Noemí Mazoy, Valery Zviarzhevich, Manuel Pardo, Pablo Mazoy... Tantas mãos,  tantas vozes!

E a chuva.


sexta-feira, 27 de março de 2015

Mulheres da Terra



Este lar medrou desde uma história de mulher.

Da bisavó que tinha nascido neste Vale do Pico Sacro, ao pé do castro de Gastrar, da avó sempre a sentir na sombra este lugar do mundo, da prima da avó que encantou a minha infância, da filha que cria borboletas no colo e raiz no mundo, e, sobre todas nós, da Rainha, de Lupa que nos entrega as palavras da criação.

Terra de mulher. Mulheres da Terra. 

quinta-feira, 26 de março de 2015

Os Castanheiros


As castanhas são dom do Outono, mas o seu ciclo começa agora, com os primeiros rebentos.

Uma dúzia de castanheiros reinícia o seu tempo de verdor, para criar os frutos deste ano.  As castanhas que procuramos no Outono, cesta em mão, para o magosto, são ainda utopia amorosa das árvores.

Conservamos frutos do último ano, encantos deste souto intercalado na carvalheira, amigo dos micélios que deliciam as cozinhas.

Uma rede.

quarta-feira, 25 de março de 2015

A casa I


A nossa casa é um sonho de vida, mas também um empenho, um esforço, um processo.

Renunciamos e ganhamos. Que por sempre assim seja!

A nossa casa está repleta de memoriais tatuados nas columnas, de forças reencontradas na vivência.

Nasceu há muitos anos, nos instantes felizes de uma tarde de infância em visita à prima da avó, ao Pico Sacro, à terra matricial da estirpe, na necessidade de retomar o caminho do clã. Medrou com sentido galaico e frutos leves, com o conhecimento do seu processo vivencial, com o passo nela dos nomes que a habitam.

Existe.

terça-feira, 24 de março de 2015

Húmus


Escavado, o solo revela a sua textura: dura a tona, pedragoso o interior e mais abaixo muita argila.

Ele é a nossa esperança. Neste início da Primavera aguardamos para conhecer as pequenas plantas, as filhas das sementes dos pementos, das melancias, das cabaças, da alface.... do carinho com que a terra é lavrada.

Saúdam as minhocas a nossa visita e voltam, rápidas, ao seu lar.

Lentura no húmus. Também em nós.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Habitantes verdes


Em simbiose com esta terra, tingimos de verde a nossa e existência.

Abrimos as portas e a casa medra espírito de erva. Perdemos limites, extendemo-nos e partilhamos as noites das vaca-louras, os dias das borboletas.
As nossas peles cobrem-se de musgo, enraízam em nós as palpitações da carvalheira e sentimos o manancial subterrâneo nas veias.

Retomamos o tempo do clã.

domingo, 22 de março de 2015

A Joana



Acompanha dias e noites esta gata sem rabo.

Chegou a casa num dia de São João, data da que ganhou o seu nome. Antes tinha sido criatura vadia, se vadia pode ser uma gata. Ficou um verão completo a fugir de nós, até que decidiu entregar o seu carinho e companha em troco de uma retribuição semelhante.
Anos mais tarde perdeu o rabo em luta singular, e assim ficou orgulhosa da sua diferença.
Joana, gata, amiga feliz.